Afonso Van-Dúnem “Mbinda”

 


Entre a Palavra e o Dever: O Homem que Serviu Angola com Alma

Nasceu em Luanda, em 1941, num tempo em que Angola ainda gemia sob o peso do domínio colonial.
As ruas eram de poeira e de esperança, e entre o som distante das patrulhas coloniais e o murmúrio das conversas secretas, crescia um jovem de olhar sereno e pensamento inquieto: Afonso Van-Dúnem, que mais tarde seria conhecido como “Mbinda”.

Desde cedo, Afonso aprendeu que a liberdade é mais do que um ideal político — é uma necessidade espiritual.
Enquanto muitos viam o colonialismo apenas como uma estrutura de poder, ele via nele uma prisão da alma.
E foi por isso que decidiu erguer-se, com coragem e consciência, contra um sistema que negava a humanidade do seu povo.

Ainda jovem, mergulhou nas lutas nacionalistas.
Sabia que lutar pela pátria não significava apenas pegar em armas, mas também educar, organizar e pensar um país novo.
Foi essa visão ampla que o tornou diferente: um patriota que sonhava com uma Angola livre, mas também justa, ética e respeitada.

Afonso Van-Dúnem acreditava que a verdadeira revolução começa no carácter.
Por isso, antes de querer mandar, quis servir. Antes de buscar poder, quis aprender a usá-lo com responsabilidade.
Essa forma de pensar moldou o homem e o estadista que o país conheceria mais tarde.

Com a independência conquistada em 11 de novembro de 1975, Angola nasceu com feridas abertas e muitos desafios.
Foi então que o nome de Afonso Van-Dúnem “Mbinda” começou a brilhar como o de um dos homens chamados a ajudar na construção da nova nação.

Foi nomeado Ministro da Administração Interna, num período de instabilidade e incerteza.
O país precisava de ordem, de instituições, de leis — e sobretudo, de homens que não se deixassem corromper pelo poder.
Mbinda foi um deles.
Trabalhou com disciplina e espírito de missão, convencido de que governar é servir e servir é amar o país com gestos e não apenas com palavras.

Era discreto, mas eficaz.
Nunca precisou de aparecer para ser reconhecido.
Preferia resultados a discursos, e dever a vaidade.

Anos mais tarde, Afonso Van-Dúnem foi nomeado Representante Permanente de Angola junto das Nações Unidas, em Nova Iorque.
E foi ali, sob o olhar do mundo, que ele deu voz a uma Angola jovem, mas cheia de dignidade.

Na ONU, falou com serenidade e firmeza.
Defendeu o direito de África a ser respeitada, a autodeterminação dos povos e o fim do apartheid.
Muitos embaixadores viam em Mbinda não apenas um diplomata, mas um símbolo de um continente que queria ser ouvido e tratado com igualdade.

A sua presença era tranquila, mas poderosa.
As suas palavras nunca eram inflamadas, mas carregavam uma força que vinha da verdade.
Afonso Van-Dúnem “Mbinda” foi o rosto da Angola sensata, equilibrada e humana — uma Angola que sabia que o respeito não se impõe pela força, mas pela postura.

Ao longo dos anos, ocupou vários cargos políticos e diplomáticos.
Foi embaixador, membro do Comité Central e do Bureau Político do MPLA, e voz constante pela paz e pelo entendimento.

Nos bastidores da política, era conhecido como homem de consenso, alguém que preferia dialogar em vez de impor.
Foi também mentor e exemplo para muitos jovens quadros angolanos, que viam nele o retrato de um líder íntegro e ponderado.

A sua vida ensinou que a política não precisa ser guerra — pode ser serviço.
E que a grandeza de um homem mede-se pela forma como ele trata os outros, mesmo quando tem poder para esmagá-los.

Afonso Van-Dúnem “Mbinda” faleceu em 14 de abril de 2014, em Luanda, aos 72 anos.
A sua partida foi recebida com dor e gratidão.
O país chorou o patriota, mas celebrou o exemplo.

Foi sepultado com honras de Estado, reconhecido como um dos grandes nomes da diplomacia e da política angolana.
Deixou para trás uma lição de vida: a de que o verdadeiro poder é o poder do carácter.

Afonso Van-Dúnem “Mbinda” não deixou fortunas nem slogans.
Deixou algo mais valioso — a imagem de um homem decente num tempo difícil.
Deixou o exemplo de que a política pode ser feita com ética, e que servir o país com honestidade é o maior ato de amor que um homem pode oferecer à sua terra.

Frase que o simboliza

“Servir Angola com verdade é a maior forma de patriotismo.”